- Já estamos a discutir e não foi para isso que te liguei.
- Para que é que me ligaste, João, sabendo que eu não quero falar contigo?
- Por causa do maldito piano.
- Deita-o fora!
(senta-se. Parece cansada)
- Não consigo.
- Oh, por favor.
- Já estive várias vezes para o fazer, mas depois… não sei, vejo a tua mãe, vejo-te a ti, lembro-me dela a oferecer aquilo. Deitá-lo fora seria mais uma traição, mais uma falha contigo… e não sou capaz.
- Eu não o quero, deita-o fora.
(levanta-se e sai da sala)
- Deixa-me devolver-to, só te peço isso. Podíamos combinar ou tu passares por aqui…
- Por amor de Deus! Havia de ser bonito, eu ir aí e cruzar-me com uma das tuas amigas.
(regressa à sala, vem calçada. Ajusta as meias)
- Que amigas, do que é que estás a falar?
- Lá voltamos nós a mais um ataque de amnésia selectiva.
- Deixa-te de sarcasmos, Ana.
(dirige-se à cómoda e acende um cigarro. Fica a andar de um lado para o outro)
- Deixa-te tu de tretas, que eu não tenho pachorra para elas. Já não tenho que as aturar… e esta conversa está a chegar ao fim.
- Não, espera! Agora vais ter que me explicar essa das amigas.
- Quero lá saber disso, a vida é tua, já não me interessa.
- Ana, eu não…
- Tu não o quê?
(levanta a voz ao mesmo tempo que coloca o telemóvel mesmo à frente da boca)
não andas a meter umas tipas em casa?
- Como é que sabes?
- É isso que interessa?
- Foi a nossa queria vizinha Mariana, não foi? Essa amiga da onça…
(procura onde apagar o cigarro. Acaba por fazê-lo no vidro da moldura tombada na cómoda, retomando a caminhada)
- Esquece. Tenho de ir.
- Não, Ana!
- Acabou, João.
- Espera. Peço-te que me oiças.
- Pedes-me tanta coisa, já reparaste?
- Por favor.
- Tenho pressa.
(acomoda-se no sofá)
- Deixa-me falar…
(silêncio)
não são amigas… não são engates… quer dizer, são…
(pára junto à cómoda, apoiando uma mão nela)
são…
(a respiração torna-se mais ofegante enquanto procura as palavras)
meninas…
(aguarda a reacção dela)
- Prostitutas?
- Sim, eu pago-lhes.
(ela tenta falar, mas nada diz. Passa a mão pelo rosto)
não me perguntes porque o faço… eu sei que precisas de respostas, que para ti tudo tem que ter uma razão, um sentido, mas o meu mundo é mais complicado que isso e não te sei responder.
(pega noutro cigarro, procura o isqueiro)
talvez alivio… não sei se é esta a palavra correcta… é porque… sabes o que é mais triste? Nem sou capaz de olhar para elas. Se me cruzar com uma na rua, não a reconheço
(não encontra o isqueiro)
limito-me a… sexo… a ter relações
(por fim, o isqueiro)
elas… eu… só consigo… com elas de costas para mim… e aquilo não me diz nada, não sinto nada.
(o isqueiro não acende, atira com ele)
fico ali… fecho os olhos, tento pensar em…
(pousa o olhar na moldura com cinza e cala-se subitamente)
- Porque o fazes?
- Tenho pensado muito nisso, nas noites em que não durmo. Penso nisso… acho que é para não te trair.
(ela levanta-se e caminha pela sala. Parece ter dificuldade em gerir o que lhe é dito)
não sei explicar, Ana, mas na minha cabeça aquilo não é trair, se for a pagar não há traição… é estúpido, eu sei… Não entendo porque o faço… e tem vindo a piorar, das ultimas vezes…
(repara no seu reflexo na moldura vazia, por entre a cinza do cigarro)
- Seja o que for, diz-me.
(Inspira fundo no momento em que seu olhar se cruza com o de uma jovem que, da parede, a observa)
- Ultimamente, fico ali, com elas, imenso tempo… naquilo, e nada. Nada!
(morde o lábio inferior)
já nem me consigo vir… só sentir-me mal comigo, muito mal… e pensar no frustrado que sou.
(levanta os olhos e vê-se ao espelho)
- Porque me contas isto?
- Não se consegue fugir ao que se é, pois não?
(não obtém resposta)
da última vez já nem me despi
(ela baixa o telemóvel por momentos, considera desligar)
Ana…
- Sim…
- Às vezes, fecho os olhos e imagino que tu…
- João!
- Desculpa.
(vira-se para o leitor)
tenho querido chorar e já nem isso consigo, acreditas? Perdi a capacidade de tudo.
Gostei da amnésia selectiva. E já se viu que vai acabar mal ou melhor... já acabou.
ResponderEliminarEna consegui ser a primeira... è dificil por estes lados.
ResponderEliminaré uma historia linda...
ResponderEliminar=)*S
credo...
ResponderEliminarconfesso, n tem nada a ver mas aborrece-me estas consciencias.
ResponderEliminare pois lamento um bocadito este m/comentario, mas.... (ehhehee existe sempre um, e qualquer comentario que se preze) aguardo o cap.IV
olarikas
... Alcides percebeu (embora se tivesse esquecido momentaneamente do que estava escrito no guião naquela cena e detestasse que lhe dissessem que tinha tido uma "branca"; na verdade, das suas três ligações, a primeira era cabo-verdeana, a segunda macaense e a actual uma norte-americana de descendência sioux... )que estava completamente envolvido com o objecto-objecto das primeiras falas deste acto. Agradeceu aos céus que o seu colega João (estudaram no Conservatório na mesma época)ripostasse a Ana que não atirava o piano fora; sugeria pelo contrário que desejava devolvê-lo a ela... Mas quando o diálogo toma um rumo mais dramático Alcides resolve intervir. Desembaraça-se do piano, salta para o palco, arranca o telefone da mão de João e declama para Ana «É isto que tu queres?! fazeres deste homem um farrapo humano?! Olha como ele se dirigiu à plateia e pôs a pessoas a chorar! Tu vê bem o perigo que isto representa. Estamos num "alerta laranja", mas com o mar de lágrimas que por aqui vai, passamos num ápice à situação da "cor-de-burro-quando-foge... da água"...»
ResponderEliminarSem esperar resposta de Ana, caminhou na sua direcção, abraçou-a desajeitadamente e tropeçou no pano que enrolou os dois antes de cair, desta vez em extase...
... lá estão eles a discutir!!! afinal, ainda comunicam...
ResponderEliminarterá um desfecho imprevisível, está bom de ver
beijo. boa semana ;)
Boa continuação!
ResponderEliminarLuis
este Rui anda-me a sair um safadote
ResponderEliminarainda estou para saber que vai fazer ao Piano no IV andamento, ai estou estou!!!!
(olha lá, traição e infidelidade são coisas diferentes!)
Raios que esta fulana é chata que nem um raio, está sempre a implicar!
eheheheh
Teresa,
ResponderEliminarSe me encontrar com o personagem, passo-lhe a mensagem.
E chateia sempre. :)
depois das lágrimas, quando achamos que perdemos a ca+acidade de tudo...
ResponderEliminarum beijo :)
E S P E T A C U L A R ! !
ResponderEliminar(n tenho mais palavras, continua!)
bj
Olá Rui, boa tarde;
ResponderEliminareu vou seguindo a história... mas sem grande possibilidade de comentar.
é o trabalho... sempre o trabalho! :)))
Continue!
Deixo um beijinho.
I.
Palavras leva-as o vento
ResponderEliminarJá entrámos pelo cano
Tu vê lá se tomas tento
Toma lá o teu piano
:)
Parabéns, como sempre... não esperava tanta frieza da tua parte (mas tb já n te lia há mto tempo)... É brutal qdo temos de enfrentar aquilo q somos, aquilo q a outra pessoa é... Mas tb n podemos esperar só rosas da vida, os espinhos faazem parte da beleza das mesmas... Situação complicada a das tuas personagens... mas adorei :)
ResponderEliminarTake care, buddy :)
LD
Muito bom texto.
ResponderEliminarMuito bom texto.
Muita culpa em cima de um homem, mas/e muito bom texto!
E isso ainda vai acabar bem.
Não sei como, mas vai.
Tens cara de quem faz por acabar bem! :-)
PS - Ah... Pois, pois, porque se tu me conheces eu também te conheço, ora essa! :-)
PPS - Essa não vais perceber sem consulta! ;-)
.
.
.
[Alerta laranja, não é Alcides Shakespeare?... :-)]
Bem giro o enredo
ResponderEliminarcontinua ssim
1 abraço
Adorei o realismo.
ResponderEliminarSenti novamente que estava no meio daquele casal escutando tudo.
Entendendo tudo.
Entendendo todos os sentimentos contraditórios que vivem.
Não sabem como recuperar a relação nem sabem como sair dela.
Não sabem porque ainda sentem o que sentem mas sentem.
Não sabem porque mas agora separados começaram finalmente a conversar.
A falar.
A dizer verdades.
A assumir falhas, tristezas, erros.
Lindo Rui.
Estive lá a escutar aquela conversa.
Parece que precisam perder-se para se encontrarem.
Como muitos de nós.
Até já.
Isabel
bolas... as tuas estórias são mesmo "polivalentes...
ResponderEliminarum cadinho "dipress"... mas vamos ver no que dá...
(sim, ainda cá estou - e barriguda!)
perdeu a capacidade de tudo....menos a capacidade de escrever/descrever escrevendo realidades que a ficção desnuida.
ResponderEliminarbom dia.
até ao dia...
:)))))
Primeiro: o teu texto está mesmo muito bom.
ResponderEliminarSegundo: esse João ou tem um camião de culpas às costas ou tem cá uma lábia... :) Homens!! :))**
Dirige-se à boca de cena, com uns piscares de olhos e uns meneios de cabeça de quem espera cumplicidade do lado de lá da escuridão e diz:
ResponderEliminar-Isto é tudo uma encenação… pedi à Mariana para me ajudar a montar este enredo para ver se ainda vou a tempo de reconquistar a Ana. Pensei que talvez funcionasse, assim, com uns detalhes lúbricos e devassos pelo meio, mas agora já não sei, já estou em dúvida. Se calhar exagerei. Se calhar devia ter inventado um caso com a própria Mariana que está aqui na porta ao lado, em vez de ir buscar mulheres a outras ruas...
:)
Este homem está um trapo! Sem auto-estima nenhuma, como é que espera que ela volte? Devia amar-se um bocadinho mais....
ResponderEliminar:) bem escrito!!!
beijinhos
Como sempre, o texto está muito bem escrito. A história envolve tanto que tive de voltar atrás e ler as duas primeiras partes (o que é um feito só por si).
ResponderEliminarAguardo pelo próximo texto. Também quero saber qual é a cena do piano afinal.
está muito melodramático!... parece que há situações destas, não é?... ouvi dizer que sim, mas não as entendo... e às vezes gostava de entender!...
ResponderEliminarBom, muito bom, aguardo o resto.
ResponderEliminarBeijocas.
Há tantas razões que não entendemos ou não queremos entender...
ResponderEliminarTardo, mas não falho, pelo menos aos locais em que já me viciei como é o caso deste ;)
Como já é habitual, tanto este como os dois últimos textos estão excelentes, aguardo pelo desenvolver do enredo.
Beijo e bom fim de semana :)
(14h??!? ai-ai...
ResponderEliminarbamos-a-ber se escapo a uma dessas...
-> tens lá um post mesmo a propósito do teu PS :oD )
Bjss e parabésn pelos 6 mesinhos do rebento2!!
Continuo atente ao palco principal e ao dos bastidoes...Engraçada troca de bola :)
ResponderEliminarOpps...'atenta' ;)
ResponderEliminarOlá menino,
ResponderEliminarestou a gostar muito!
Desejos de um lindo fim de semana
Beijinhos
Isa
Fico fascinada com os teus posts. Este piano tem dado muito que fazer...e que conversar.
ResponderEliminarBeijinhos mi...guito