quarta-feira, outubro 25, 2006

A Luz (parte 5)

- Posso oferecer-lhe uma fartura?

A música já tinha terminado há algum tempo, mas os versos continuavam a ecoar-lhe na cabeça. A pergunta fê-lo recuperar o tempo presente.

Em frente a si, uma mulher cujo rosto denunciava já ter passado a meia-idade, sorria-lhe. Os olhos dela, dois grandes círculos azuis-escuros, lembraram-lhe alguém.

- Desculpe, mas não a percebi.
- Perguntei se lhe podia oferecer uma fartura. - Não obteve resposta. O homem continuava preso nos olhos dela. – Ai, desculpe-me, já disse o que não devia… ofendi-o… - A mulher estava agora visivelmente atrapalhada. – Não me leve a mal, por favor… mas vi-o aí, encostado, tão triste, com esse olhar, e pensei que…

O homem olhou em redor. Estava quase encostado a uma roulotte de farturas, em frente ao palco.

- Não levo a mal. – Disse, sorrindo. – Imagino a figura que eu estava a fazer, para a ter levado a oferecer-me uma fartura.
- Pareceu-me muito triste, confesso… e depois, eu sou muito impulsiva, vi-o aí e… - procurou as palavras.
- Teve pena do velhote.
- Não me leve a mal, eu não queria… é que faço as coisas sem pensar… achei-o… abandonado, acho que foi isso, e com vontade de comer uma fartura, sem o poder fazer. Estão tão caras, acho isto uma vergonha, num país destes, um euro, onde é que isto irá parar… - Calou-se subitamente.

O velhote continuava a sorrir-lhe e ela corou, colocando os olhos no chão. Depois acrescentou: - É outro defeito meu, falo demais.

- Não se preocupe.
- Só me tem trazido dissabores, sou uma desastrada.
- Só estava a ser simpática. Sabe, na verdade eu estava era a ouvir uma música do Tony de Matos e distrai-me. Já não o ouvia há muito tempo. – Fez uma pausa. – Hoje não é fácil ouvir estas músicas de antigamente… quem é que quer saber disso?! As pessoas esquecem.
- Às vezes, somos nós que deixamos que se esqueçam de nós.

A mulher ia pedir mais uma vez desculpa e despedir-se, mas o velhote interrompeu-a com uma pergunta.

- Porque é que veio hoje à feira?
- Vivo aqui perto, é domingo, não tenho planos. – Respondeu ela, após uns breves segundos de hesitação. – Ainda telefonei à minha filha, desafiei-a a vestir o fato de treino que tem igual ao meu e a virmos as duas ao Centro Comercial Pimba, que é como ela chama a isto. – Acompanhou as palavras Centro Comercial com um gesto simultâneo dos dedos indicador e médio de cada mão. – Gosto de vir aqui ver as pessoas, ver o que elas compram, de observar o que aqui se passa. Sim, acho que venho cá pelas pessoas… mas ela queria dormir, sabe como é. – Concluiu com um encolher de ombros resignado.
- Eu vim cá de propósito para comer uma fartura. – Respondeu o homem, como se tivesse feito a pergunta anterior para que fosse ele a dar a resposta. – Estava em casa, com muita pena de mim… ao domingo é sempre pior, vá lá perceber-se isto… e vim cá comer a fartura para me animar. – Depois, como que adivinhando o que ela estaria a pensar, acrescentou: - Você tinha a sua razão…
- E chegou a comê-la?
- Não, não consegui… o preço… só serviu para ficar ainda com mais pena de mim.
- A felicidade numa fartura… - Deixou ela escapar num murmúrio.
- Não, não se trata disso.
- Eu não queria…
- Sabe de onde se vê bem a feira?
- Não faço ideia.
- É das traseiras.
- Das traseiras?
- Confia em mim, tem tempo para me acompanhar?
- Estou como o outro: tenho todo o tempo do mundo.

43 comentários:

  1. Hummmm, cheira-me a romance!!!!
    ehehehhehe, que vai o velhote fazer com a senhora para trás das tendas??? Ai ai ai rui.... tu vê lá no q isto dá!

    bj

    ResponderEliminar
  2. Rui, estive a leer as partes todas hj num bocadinho que arranjei, pk sempre que abria o teu blog aparecia alguem a pedir alguma coisa e assim ficava pra depois ... parece que o cheiro das farturas chamava pelo ppl ;-)
    Gostei muito desta parte da história publicada, sabe-se lá como ira acabar,és sempre uma surpresa. Beijinhos da Jaquinnna

    ResponderEliminar
  3. Cheguei depois da demorada manutenção (li enquanto se mantinha!)

    então, já temos companhia!!!!

    hum....e o que se segue?

    aguardo com curiosidade!

    ResponderEliminar
  4. Este seu velhote merecia mesmo uma mulher simpática e que, parece, não se deixou ainda aprisionar pela cor cinzenta da solidão. Vislumbra-se uma aventura que será vivida a dois. Com muita fartura de ternura e polvilhada com o aroma excitante da paixão. Benefícios da felicidade, num posto de observação, nas traseiras de uma feira perto de nós.

    Bom dia. :)

    ResponderEliminar
  5. "Às vezes, somos nós que deixamos que se esqueçam de nós" - Tão verdade...

    ResponderEliminar
  6. Bem tudo pode acontecer,

    conta...conta....

    Um fim de semana repleto de alegria

    beijitos

    Isa

    ResponderEliminar
  7. Ja te devem ter chamado de contador de historias... :) se não, chamo te eu agora. Qual a tua inspiração? Um abraço.

    ResponderEliminar
  8. peço desculpa pela invasão mas não resisti... e vou voltar para ler pelo menos o fim da historia...

    bjinhx

    ResponderEliminar
  9. Mas este espaço é para ser invadido. Mandei secar o fosso, destruí as ameias e escancarei a porta.

    É também um local LPD: Livre de Pedidos de Desculpas.

    ResponderEliminar
  10. Gostei muito desta história!

    "A felicidade numa fartura"

    Sem duvida, a felicidade em pequenos pormenores.

    :)

    ResponderEliminar
  11. Ah! Farturas... Havia umas espectaculares em Sta. Cruz :D
    beijo

    ResponderEliminar
  12. E qual é o teu conceito de meia-idade?

    considerando a longevidade média... uns 35, 40 anos? :)

    estatistícas à parte...

    és um excelente contador de histórias. ao ler-te até senti o cheiro das farturas e vontade de comer uma...

    ah! será que és tagarela, ou apenas um caranguejo tímido que escreve como escape ao silêncio da alma? :)

    deixa... não precisas contar! eu vou construindo as respostas a partir das tuas letras. :)

    Um abraço fraterno de outra 'carangueja'! :)

    ResponderEliminar
  13. Fez-me lembrar a TVI... tipo das oito às dez da noite (quer dizer, calculo)... sei lá, mais ou menos isso. E a SIC tambÉm... olha e todas as outas, bolas! (com cremi)lol

    =D

    ResponderEliminar
  14. olha, podíamos formar a Irmandade do caranguejo.

    :))

    ResponderEliminar
  15. hehehe... ta bem... eu entao vou invadir de vez enquando sim? ;) bigada!

    ResponderEliminar
  16. E a irmandade do caranguejo ia ter que objectivo, a luta contra o maléfico Sauron Delicia do Mar?

    ResponderEliminar
  17. porque não escreve um livro? tem muito jeito, eu adoro escrever, mas a minha escrita não é tão talentosa como a sua, então vou~me desforrando nos poemas.

    É sempre um prazer visitar o seu blog.

    beijocas.

    ResponderEliminar
  18. Este texto é bem mais real do que parece... quantos velhotes não andam por aí à procura de alguém que lhes dê uma palavra, um carinho, uma fartura?... beijo...

    ResponderEliminar
  19. Ah! Ah! Ah! Ora aí está um excelente ponto de partida e aposto que o Rui já tem a fervilhar as linhas orientadoras do projecto.

    Estou lá em baixo entre as rochas à beira-mar na poça P, para o caso de ter trabalho para distribuir.

    :))

    ResponderEliminar
  20. Rui-Rui-Rui... Mr. Rui!...
    Está delicioso!
    Sabes (aconteceu-me este "tu", não sei se o poderei manter?!)... Li hoje um pequeníssimo texto (num jornal da treta) que me soube bem, e que, de alguma forma o teu agora me fez evocar. Até levei o jornal comigo, para a sala onde dei a formação do dia, em vez de o atirar fora. Todavia, creio bem que o meu chefito resolveu metê-lo no lixo, julgando-o ali deixado pelo pessoal que me anteceu, pois quando voltei à sala já ele lá não estava. É pena!... Gostava de to deixar. Mas enfim, esqueçamos isto, pois importa apenas que:
    é do estilo, do jeito, da frequência, da ressonância, ou de algo bem mais existencial e inexplicável, mas... 'Bom, muito bom o pedacinho de qualquer coisa, com sabor a fartura, que vai entrando a cada linha lida.
    Era isto!
    Até já! :-)

    ResponderEliminar
  21. Já agora (ia deixar no meu blog, mas gosto de a deixar aqui), esta é para o autor e não para a personagem:

    "Os prazeres simples são o último refúgio das pessoas complexas"

    [... E não, não estamos só a falar de uma fartura :-)]

    ResponderEliminar
  22. PS - In "O Retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde (esqueci!)

    ResponderEliminar
  23. Para te ler...também vou ter todo o tempo do mundo.

    ResponderEliminar
  24. Hoje não li, porque não quis. Vou optar ler os teus contos só no fim. Ao menos não sofro de ansiedade.
    Só vim aqui dizer-te que tens umas manias lá no meu sitio

    ResponderEliminar
  25. (caro Rui... isto é um extra-post... dei uma maozinha... uma perna inteira... coxinha de camarão é que não dei!!! "Mais vale a morte que tal sorte" eheheheh à C-Hall do polissemias... eu sei.. eu sei.. fui abelhuda... mas.. tocou num ponto sensível à minha sensibilidade ahahahahha as cruzadas! esses idiotas que andaram na matança!!!! agora... temos duelo garantido!!! (e ouviu-se uma gargalhada cavernosa das profundezas do abismo!!! se a C-Hall alinhar, arranje parceiro(a) para sermos dois/dois!!)

    pronto... meti mesmo o bedelho... como sempre como sempre!!!

    ResponderEliminar
  26. A terceira idade foi para as traseiras?! O velhote tem pinta e uma grande lábia e ela... não lhe fica atrás... Que a meia-resposta que lhe deu foi esclarecedora: "tempo era coisa que não lhe faltava". É lá preciso confiar em alguém quando se é convidado a ir para as traseiras?!
    Ou como diz o "outro": " Não há fome que não dê em farturas"...

    ResponderEliminar
  27. Ai como o meu coração ficou apertadinho. Como tu escreves!
    Maravilhoso!
    Mesmo!
    Se toda a gente olhasse para as histórias como essa que se passam por ai e que se cruzam com as nossas histórias muitas vezes sem repararmos.
    Além de uma linda história é também um alerta para que tiremos um pouco do nosso tempo para olhar para o nosso lado. Não é preciso todo o tempo do mundo.

    Mais uma vez lindo!

    Isabel

    ResponderEliminar
  28. será que o velhote toma consciência da sua misantropia e pretende sair dela? ou será que é apenas um truque do seu inconsciente e vai enganar a senhora?...

    ResponderEliminar
  29. Olha... Fui ao caixote do lixo, para que saibas! E ainda consegui salvar o jornal de ontem e recortar-lhe a tal da historieta. Mas cabeça no ar como sou, guardei-o numa pasta e a essa no armário e a esse fechei-o e por lá ficou... Até segunda! (é pr'o mistério;-)
    Até segunda, então! Lol

    PS - Legível e plausível um certo comentário de entre estes todos.

    PPS - Mas por que deu todo o mundo para falar de "velhote"? Afinal o cavalheiro era de meia-idade ou de idade-inteira? Con los diablos! :-(

    ResponderEliminar
  30. Incrível como nas mais pequenas coisas, nos mais pequenos pormenores inventamos todo um Mundo Maravilhoso.

    Deu e dá que pensar, Rui.

    A história evolui e espero que se desenhe em linhas de magia a culminar num ponto final perfeito... é que detesto finais infelizes.

    A vida real já é cruel que baste...

    Beijos e bom fim de semana
    (o pequenino? Está bem?)

    :)

    ResponderEliminar
  31. Tb eu tenho todo o tempo de mundo para te ler, como fico eternecida quando aqui venho e leio e releio o que escreves, palavras tão bem casadas, diálogos tão reais, que bom Rui continua. Bom fim de semana

    ResponderEliminar
  32. :) sempre a deixar o melhor para depois... e ficamos aqui presos....
    bjinhos

    ResponderEliminar
  33. De facto o tempo é tão relativo... para as pessoas tristes sobra sepre tempo...

    adorei particularmente ela a dizer que convidou a filha a vestir o fato treino igual ao dela, para irem ao "centro comercial pimba"

    loll

    uma pitada de humor fica sempre bem

    beijosss

    ResponderEliminar
  34. Bom dia!

    Passo para dizer que:

    - me baldo descaradamente ao teu desafio chamado "Irmandade do Caranguejo", pelo que peço desculpas extensíveis à TD.

    - que há apelos inevitáveis e o melhor é ceder-lhes. a falta de disponibilidade deu uma ajudinha.

    - agradeço de coração a tua colaboração no finado Polissemias.

    -não desisto, porém, de continuar a ler as tuas histórias, aqui.

    Obrigada e boa semana.

    :)

    ResponderEliminar
  35. olá Rui!

    (eu sei que querias as mulheres, eu é que fiz delas tuas inimigas por maldade! - maldade brincadeira obviamente - e já sei, de manhã fui ao Polissemias e..puf! C-Hall foi embora!)

    E estou à espera da parte 6!!!!

    ResponderEliminar
  36. Ainda há farturas?







    deixo-te um abraço e um sorriso.

    ResponderEliminar
  37. Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
    te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
    Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
    y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

    Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
    y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
    Para sobrevivirme te forjé como un arma,
    como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

    Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
    Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
    ¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
    ¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!

    Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
    Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
    Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
    y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

    Boa Semana
    besitossss by pequenita

    ResponderEliminar
  38. todo o tempo do mundo

    e sim... fala xde mais...

    abraços monárquicos

    ResponderEliminar
  39. ... aquilo nas traseiras deve estar animadíssimo; e não lhe falta fôlego, está visto!...

    ResponderEliminar
  40. Sentou-se no banco do jardim com cuidado. Como fazia todos os dias, em ritual lento e diligente, limpando, com o lenço, o assento verde esbatido e rasgado pelo sol e, depois, aconchegando-se bem atrás. Tinha o seu banco preferido. Ficava logo à entrada, por debaixo de uma árvore frondosa, e isso permitia-lhe ver quem entrava, quem saía, as crianças a brincarem e os cães à solta. Chegava todos os dias pontualmente, ao bater certo das dez horas, no relógio da Basílica e, se chovia, encolhia-se em casa como uma flor murcha e desfalecia no sofá. Precisava daquele ar puro, daquela gente desconhecida que se movimentava, que ia para algum lado, que, portanto, tinha vida. A ele restava-lhe, ao acordar, olhar pela janela e ver o sol – e aprontar-se para mais um dia no jardim. Apenas isso.
    Conhecia a rotina do jardim porque era aqui a sua casa. Era o único lugar onde via gente, onde não esperava nada e esperava tudo. Quando o filho e a nora e o neto o visitavam no lar ao fim-de-semana, cada vez o mês tinha menos fins-de-semana, ficava com os olhos colados nas vidraças e imaginava-se no jardim. Por que vinham eles se não tinham nada para lhe dar ou dizer? Nem um afago, uma festa na mão, carinho que disfarçasse o fastio de ali estarem.
    É triste estar vivo e ser só um fantasma de uma história que já acabou. Tão triste como as árvores nuas e a água a escorrer como um rio gigante, e ele ali, sombra num sofá a contar os dias até que a porta da rua se abrisse e ele pudesse voar de novo e perder-se no jardim.


    (“A Vida no Jardim” – Luísa Castel-Branco, in Destak, 26/10/2006)

    … Porque promessa é promessa!

    PS - Hoje escrevi com fartura! ;-)

    ResponderEliminar
  41. ... confiou???? vou passar ao próximo

    beijão :)

    ResponderEliminar
  42. ok... já sei a resposta... de facto n conheço nada do Tony de Matos.... sou um cadinho mais nova que o velhote! :o)


    adorei a espontaniedade da senhora em ter oferecido a fartura.. pena que as pessoas se contenham em fazer o bem...
    ... mas pelos vistos têm razão... os outros nao gostam de sentir que é por pena...
    ...complicado!



    bute lá ver a feira das traseiras!!! :oD

    ResponderEliminar