terça-feira, junho 20, 2006

Uma Luz Que Se Apaga

Centro Comercial Amoreiras. Ao almoço, fala-se de como andamos cansados, das pequenas rotinas da vida, das intrigas parvas do escritório. No final, temos o estômago cheio mas não percebemos o vazio.
Procura-se o elevador que nos trouxe até ali, mas perdemo-nos no labirinto de corredores. Dizemos mal do arquitecto que riscou tal coisa, sem querer saber que, o mais certo, o defeito é nosso, que não nos sabemos orientar em centros comerciais.
Encontra-se o elevador e amaldiçoam-se as pessoas que não têm mais nada que fazer que é andar em centros comerciais aquela hora e que fazem com que o elevador demore a chegar… não dando importância ao facto de, também nós, lá estarmos aquela hora.
Descemos ao piso -2 e procura-se a maquina onde pagar o estacionamento. Nada, será possível? Puxa-se pela memória e chega-se à conclusão que nas Amoreiras, as máquinas estão no centro comercial propriamente dito e não no estacionamento.
Sentimo-nos ferver e dizemos a quem nos queira ouvir que somos as pessoas mais azaradas do mundo, que não merecemos nada daquilo.
Volta-se atrás mas, da máquina, nem sinal. Oh vida desgraçada… Interjeições não reproduzíveis são gritadas em silêncio.

- Suba as escadas, à porta do cinema há umas máquinas.

Já estamos no piso 2, quatro pisos distante da viatura! Finalmente, a máquina. Moedas não temos e a nota que temos não parece estar em condições de ser aceite. Entre dentes, mandamos tudo e todos para os piores sítios que conseguimos imaginar. Já não somos os mais azarados do mundo, somos sim, do universo.
Pago o estacionamento, faz-se o caminho de volta. À porta do banco milenar, toca o telemóvel. É o Luís.

- Tudo bem, pá?
- Más noticias…
- Então?
- A Sandra, morreu.

Silêncio, falham-nos as palavras.

- Mas ainda há três semanas falei com ela, parecia bem…
- Piorou nos últimos tempos, o cancro tomou conta dela e não lhe deu hipótese.
- Como é que eu não percebi?!
- Não percebemos.
- Tão nova, 35 anos… Nem sei o que te diga.
- Não digas nada. Telefonei-te não para te estragar a tarde mas para te dizer para aproveitares o resto do dia… de todos os dias. Valemos pouco.
- Somos muito frágeis.

Chegamos ao estacionamento, de um momento para o outro, sinto aquele espaço convergir para mim, apertando-me por dentro. Todas as queixas, todos os lamentos de há uns minutos, amolgam-me o coração. Sinto vergonha.

45 comentários:

  1. Rui
    somos sim, mas podemos aprender a valorizar este ser frágil, evitando o evitável.
    1 BJ

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  2. É tão verdade. Na maior parte do tempo estamos tão concentrados nos nossos problemas que nos esquecemos de viver...

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  3. Silêncio escrito, faltam-me as palavras ;)

    :***

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  4. Verdade, perante a morte tudo o mais é relativo!

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  5. Ai Rui, por isso te dizia no outro dia k tinha crescido, existem coisas na vida k deixamos mesmo de dar significado.

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  6. bem...

    eu vinha deixar-te o comentário (que escrevi no meu blog) em resposta ao teu...

    mas de repente não me parece que seja o post adequado...

    ...e os nós do pescoço passaram para o estômago.

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  7. Roubo a linha .. porque me falham as palavras ...
    ***

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  8. Excelente texto de reflexão, não carece de comentários...

    Beijos

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  9. Olá,

    texto de grande replexão,


    beijinhos


    Isa

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  10. querido rui,

    fiquei arrepiada até à medula

    amigo, que sintas uma mão amiga a pousar no teu ombro e um desejo de paz no teu coração

    um beijinho para ti,

    alice

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  11. puxaaaaaaaa..... nao vinha aqui há dias e até fiquei meio zonza....

    :(

    mas tens razão, temos que viver tudo, dia a dia, minuto a minuto.

    um bj pa ti

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  12. Situação arrepiante...
    Lembra-me uma coisa que a minha mãe costuma dizer... "para morrer só precisas de estar vivo, por isso aproveita enquanto estás..."

    Beijo

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  13. sob os meus dedos um sinal de fogo
    a labareda que consome a tarde
    a geada que se espalha nos cabelos
    e como um lenho velho o tempo arde

    posso escrever a monografia lenta
    do vento nos gemidos de um moinho
    a esmagar a semente do tédio
    devagar somo se segredasse mistérios

    posso evocar o riso adolescente
    soltar as tranças do primeiro beijo
    tecer grinaldas de leves açucenas
    deixar que as pálpebras se fechem
    sob o sol dourado do desejo

    posso pintar o céu de alazões rubros
    despertar vendavais nos nossos dias
    posso inventar a síntese do ciúme
    a raíz quadrada da inquietude
    o almiscarado desejo do teu corpo

    lavrar o incêndio último dos corpos
    e depois deixar que a neve cubra tudo
    do mais branco silêncio...

    beijuuuuu :o) pequeninita

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  14. fónix... é tudo o que me apraz dizer: fónix... é que é bem descrito pá, tu tens jeito pra isto... bjs e continua

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  15. E assim nos crurvamos em penitência, perante a crueldade da vida. Já tive uma situação identica com uma amiga. As minhas palavras tb foram parecidas, não sabia o que lhe dizer. Ela disse-me que não havia nada p dizer. Chorei dps dela desligar como se tivesse sido comigo. A impotência é enorme....
    Penitencio-me por ser tão negativa tantas vezes, por não conseguir erguer a cabeça e encarar a vida de frente. Afinal de contas não sei o tempo que me resta...
    Viver, amar, aproveitar, sorrir e acreditar. Um beijo e obrigada pela amizade pelas palvras que me deixas nos meus cantinhos. Tudo de bom p ti e para a familia.

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  16. Mto bom o relato. Fragilidade. Vergonha sentimos todos nós.
    Beijo a ti

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  17. A vida é uma porcaria, temos q aproveitar os momentos bons

    1 abraço

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  18. esta é daquelas estórias que se escrevem ou no fim, como um resumo, ou no princípio, como tópico, mas nunca pelo meio... gostei muito, muito...

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  19. É, infelizmente, perante as perdas e ao nos apercebermos da efemeridade da vida que aprendemos a dar valor ao que temos...

    Muitas vezes não sabemos valorizar o que a vida nos proporciona e a maior parte das vezes somos de tal forma privilegiados que só nos resta a vergonha das vezes que nos queixámos...

    Escreves duma maneira tão profunda que nos toca a alma. Obrigada!

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  20. Gostei muito do texto. Infelizmente a maior parte das pessoas ainda não entendeu, também, que quando um de nós desaparece o universo lá continua o seu caminho sossegadinho, alheio a esses acontecimentos banais.

    (Por isso vou dando as minhas gargalhadas lá no Blog e dizendo das minhas...eheheheh... há tanta coisa que não vale a pena com que nos aborrecermos.)

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  21. Seize the day!
    Mais uma vez, palavras para quê?
    Ouvisse-as eu também...

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  22. AAAAAARGH!!!!

    não podias ter começado pior :o(

    pode ser que acabe bem! eh!eh!eh! (sou sempre a mesma... :oD )

    BJss

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  23. ou...

    ah! atão é por isso que não vou aos Amoreiras há 4 anos!!!

    LLLLOOOOOOLLLLLLL


    Bjss

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  24. pena que só nos apercebamos do nosso ridículo quando acontecem essas coisas...

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  25. É incrivel como damos importância e nos sentimos zangados com tanta coisa sem importância, como o caso do elevador que nunca mais chega, do ticket do parque de estacionamento, da buzinadela de um tanso qualquer...
    É incrivel como muitas das vezes é preciso algo de grave acontecer para percebermos que afinal não vale a pena stressar com este tipo de coisas. Afinal, estamos vivos!!! Temos sim de aproveitar o que temos de bom, o que nos acontece de bom, porque o resto, não tem importância nenhuma!
    Só que muitas das vezes não nos lembramos do quanto é bom viver!!!

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  26. Pois é Rui!...são os maleficios da sociedade, das rotinas, dos cronometros, dos objectivos, dos lucros, dos incentivos, desta vida de prontos-a-comer, prontos-a-vestir e prontos a morrer. Tudo se consome e nem damos conta do que temos, das pequenas felicidades que possuimos, dos nossos grandes tesouros!


    Nem damos conta de nós...na correria para o elevador que nos leva de nós...



    Van

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  27. ... é por essas e por outras que cada vez menos, entro num centro comercial, que além locais pouco aprazíveis, com caixas do parqueamento fora de mão, comida de plástico, salas de cinema com pipocas, também podem ser pressagiadores de más notícias.

    O único que frequento sem reticências é o Alvaláxia. Arejado e onde o verde não falta...

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  28. amarguramos os nossos dias de forma ridicula... deviamos sentir vergonha, sim! tanta banalidade, tanto vazio

    quando o essencial é estar vivo e dar qualidade aos dias frágeis

    beijo forte

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  29. rui... a vida prega-nos partidas...
    abraços monárquicos

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  30. Somos muito frageis, sim!
    Gosto de te ler...
    E espero que essa saúde já esteja
    a 200%

    Fica bem!

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  31. A Vida é boa nos somos tudo, só temos que aprender a relativizar.

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  32. Passei apenas para te deixar um beijo e desejar-te um óptimo fim de semana :)

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  33. Rui a Gina vai sair amanhã, se tudo correr bem. Ela manda te beijinhos, e tá ansiosa para vir aki. Bom fim de semana

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  34. Põe-me o braço no ombro
    Eu preciso de alguém
    Dou-me com toda a gente
    Não me dou a ninguém
    Frágil
    Sinto-me frágil

    Faz-me um sinal qualquer
    Se me vires falar demais
    Eu às vezes embarco
    Em conversas banais
    Frágil
    Sinto-me frágil

    Frágil
    Esta noite estou tão frágil
    Frágil
    Já nem consigo ser ágil

    Está a saber-me mal
    Este Whisky de malte
    Adorava estar "in"
    Mas estou-me a sentir "out"
    Frágil
    Sinto-me frágil

    Acompanha-me a casa
    Já não aguento mais
    Deposita na cama
    Os meus restos mortais
    Frágil
    Sinto-me frágil

    Frágil
    Esta noite estou tão frágil
    Frágil
    Já nem consigo ser ágil..

    Se precisares tou aqui 1 grande bjo

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  35. un gran finde...
    cumprimentos monarquicos

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  36. So para desejar te uma boa semana e aos teus tb. O pequeruxo? Espero que esteja bem :)
    Vá animo e força para seguir em frente. Beijinhos

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  37. Este traz-me à memória momentos ainda bem vivos na minha memória... :S
    Mas a vida é assim... e temos é que aprender a dar valor àqueles de quem gostamos, porque eles dão mais sentido à nossa vida! :)

    Sabes...?
    (eu sei que sabes ;))

    Beijo grande, Rui!

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  38. é tão verdade... tão verdade...
    tambem eu tenho o coração apertado neste momento....

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  39. so para te deixar um beijo...

    se postares rapido rapido, levas mais um ;))

    tudoo bem contigo???

    Van

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  40. Começam a tornar-se demasiado próximas e demasiado frequentes, todas as mortes, doenças e demais razões que ceifam as vidas de quem amamos.

    Beijinhos

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  41. Ruizito!

    Amigo este post não consigo komentar.
    Só konsigo dizer-te ke gosto muito de ti, és um amigo do craças
    Beijinhos

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