domingo, maio 21, 2006

Uma Vida Demorada (10)

Senti uma gota de suor formar-se na têmpora direita; desceu alguns milímetros e depois, maior, escorregou pela face, suspendendo-se no maxilar. Quis limpá-la mas não fui capaz de me mexer.
O tempo parecia ter parado para mim. Percebia que Maria, a velhota, protestava com o marido, certamente dizia-lhe que não devia dizer disparates. Leonor falava comigo, olhava na minha direcção e vi-a mexer os lábios, talvez me perguntasse se eu estava bem. Mas eu não os ouvia, dentro da minha cabeça, mil pensamentos entrechocavam-se, como se todos quisessem fazer sentido ao mesmo tempo. Os primeiros indícios de uma dor de cabeça fizeram-se sentir.

- Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas? – Leonor tinha-se virado para o homem e interrogava-o. Foi a pergunta dela que me devolveu aquela sala.
- Vocês não lhe liguem. – Maria, sentada num banco que trouxera da cozinha, implorava-me com o olhar que acreditasse nela.
- Cala-te, mulher! – Manuel fez um gesto de desprezo com a mão. – És pior que eles todos, cambada de cobardes.
- Eles quem? – Era Leonor quem continuava a fazer perguntas. Estava visivelmente interessada no que o homem tinha para dizer. Pela minha parte, continuava a tentar ordenar as ideias.
- Eles todos! Vocês não sabem mas eu vou contar-vos: o teu pai era muito comunista, a tua mãe não sei, mas o teu pai era. Aliás, aqui nesta zona, era ele o maioral, o chefe, quem decidia o que se fazia. E o teu avô também foi. Um dos primeiros. – Manuel despejou mais um copo de água. – Era assunto de que não se falava, mas toda a gente daqui o sabia. Era ele que mobilizava a malta contra o Grémio e que passava uns papéis entre quem sabia ler, que eram poucos, mas esses liam aos outros e era assim que se fazia naquela altura. Esteve algumas vezes preso, levavam-no para Faro e voltava uns dias depois um bocado amassado. É mentira, Maria? – Ela nada disse, limitou-se a baixar a cabeça. – Mais nada. Oiça amigo, a PIDE andava aí em força quando ele ficou no mar, dizia-se que o vinham buscar e que desta vez ia para Lisboa… um incêndio uns meses antes num barco que furou uma greve…
- Mas e a minha mãe, não percebo o que isto tem a ver com o facto de ela poder estar viva. – Por fim, consegui falar.
- O meu filho. – Fez uma pausa. – Foi há uns anos para a América, um dia chegou a casa e disse que se ia embora, que estava farto da vida do mar, fez a mala e só deixou esses livros que aí vêem. Nunca mais soubemos nada dele… eu já quis fazer uma fogueira com eles, mas não me deixam. – Olhou para a mulher, que se levantou e desapareceu na cozinha. – Bom, era ele mocito pequeno, uns anos mais velho que tu, entrou por essa porta todo esbaforido, a gritar por mim, dizia ele que uns homens que vieram de carro te tinham levado a ti e à tua mãe.
- Quem eram eles?
- E como vou eu saber? Cá para mim eram uns capangas da PIDE, ou da GNR, mas e se o miúdo estava a mentir? O que é certo é que depois desse dia, nunca mais ninguém os viu, a ela ou a ti. – Leonor olhava para mim com os olhos muito abertos. – Uns dias depois, um desses reles do Grémio apareceu aí com a noticia de que tinham encontrado a tua mãe pendurada numa árvore, num monte qualquer, e tu numa alcofa. – Maria apareceu com outro copo de água que entregou ao marido. – O médico diz-me que tenho que beber muita água… e eu bebo, é mais barata que a botica.
- O senhor não acreditou em nada disso.
- Eu conhecia muito bem a tua mãe, a tua mãe lá era pessoa de se matar, alguma vez… e deixar-te numa alcofa… - O homem abanava a cabeça. - Ainda fiz umas perguntas, mas ninguém quis saber, tinham todos medo. Fui avisado muitas vezes para não mexer no assunto… os cobardes…. Agora diz-me tu: dá para acreditar numa história destas?

Eu não sabia responder à pergunta. Tinha vindo à procura de respostas e ia regressar a casa com mais perguntas.
Manuel “Gato” não tinha nada de concreto que nos pudesse ajudar, apenas uma desconfiança de quase quarenta anos.

Despedimo-nos, já na rua, com alguma emoção. O céu estava limpo e o sol tinha já desaparecido atrás das casas. Uma brisa fresca vinda do mar, fazia-se sentir.
Os velhotes tinham ficado muito emocionados com o meu inesperado regresso. Prometemos voltar ainda nesse verão para os visitar.

- O senhor desculpe, mas queria fazer-lhe ainda uma pergunta. - Disse Leonor.
- Diga lá menina.
- Afinal, como é que se dobram os fósforos?
O homem esboçou um sorriso, a única vez que tal aconteceu: - Ora, é fácil, basta deixá-los uns tempos dentro de água, assim ficam moles e podemos dobrá-los, depois secam na posição que queremos.
- Eu também tenho uma pergunta para lhe fazer. – Tinha-me lembrado de algo. - De onde lhe vem essa alcunha de “Gato”?
- Porque dizem que tenho sete vidas, como os gatos. Aos dezasseis anos já tinha partido as duas pernas, os dois braços, a cabeça e umas costelas. Tudo a trabalhar. Outro teria morrido, mas eu só parti ossos.

Acenámos e preparávamo-nos para regressar à pensão, quando o homem acrescentou: - Tu ainda eras muito novo para ter uma alcunha, eras só o João Carlos do Pirola.

Foi como se tivesse batido numa parede. A custo, virei-me para o casal.

- Mas eu não me chamo João Carlos.

28 comentários:

  1. ... interessante! agora tem um novo nome... ainda há muito para descobrir, já tem mais uma pista! veremos se Leonor e João conseguirão desfazer este novelo...

    torço para que sim, que a verdade venha à tona

    ResponderEliminar
  2. Uau!
    Estou cada vez mais presa a esta história! Espero ansiosa a continuação desta delicia! Beijocas! ;)

    ResponderEliminar
  3. bem...tenho que vir por a leitura em dia...

    *beijos*

    ResponderEliminar
  4. ai... meu deus... rui, pela tua saúde, tu queres-me matar??? anda, anda, conta logo logo o resto que eu já n me aguento... bjs

    ResponderEliminar
  5. Rui,
    Entro só mesmo para dar um allô.
    Comentar o teu Post desta feita seria desonesto da minha parte. Perdi-me da leitura desta história logo no 2º capítulo e agora parece-me dificil recuperar a leitura, por falta de tempo.
    Keep on going!

    ResponderEliminar
  6. UI, agora é que nos partis-te as costas! :)

    ResponderEliminar
  7. É natural, que lhe tivessem mudado de nome...

    ResponderEliminar
  8. Esta história está cada vez mais interessante... estou mortinha pelas cenas do próximo capitulo... eheheh

    beijo doce

    ResponderEliminar
  9. sem unhas da mão...recorro ás dos pés???? :)

    isto é lá coisa que nos faças!

    Boa, Rui!

    cada vez mais interessante!

    Tres beijos, desta feita ;)

    ResponderEliminar
  10. Obrigada pelas presenças, pelas visitas. Custa-me deixar-te comentários. Porque usas as palavras todas.

    ResponderEliminar
  11. Que imaginação...

    Continua! :)

    Bjnhs e boa semana

    ResponderEliminar
  12. Ai... ganhaste balanço e agora não ha quem te pare! ;)
    Estás cada vez melhor!! :)))
    Continua que eu voltarei sempre para te ler


    Beijo Salgado ;)

    ResponderEliminar
  13. Uai! Isto está cada vez pior...:D
    Tanta espera ainda tenho um treco do coração!
    Beijus

    ResponderEliminar
  14. Cada vez mais interessante...
    Parabens

    ResponderEliminar
  15. bem!... este episódio foi um soco atrás do outro!... senti-os todos!... não que eu seja masoquista, mas o conto está a ficar cada vez melhor!...

    ResponderEliminar
  16. temos gémeos...separados à nascença??

    ResponderEliminar
  17. Amigo!

    Estou sem palavras para descrever o ke sinto...
    Envolves, inebrias, prendes,avassalas...
    Ke mais te posso dizer...
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  18. Bom Rui , que te posso dizer? Que me maravilhas a cada post. Cada vez escreves melhor. Esta historia é digna de se publicar.

    um bj

    ResponderEliminar
  19. Penso que o autor já deu mais uma volta ao assunto. Pôs o Manuel Gato a dar esperanças ao João e agora dá-lhe um nome que não é o dele. Por amor da santa da Fuzeta! Este Gato foi um achado para fazer esticar a história!

    ResponderEliminar
  20. xxxiiiiiiiiii... a parte da Pide e tal são boas repostas, não são perguntas... agora essa do João Carlos....... bolas!

    BJss

    ResponderEliminar
  21. E o enredo complica-se...

    E eu espero a custo.
    Beijo

    ResponderEliminar
  22. ... já disse e repito; este homem tem montes de posibilidades de escrever guiões para o cinema...

    ... sabe como prender a atenção do leitor... e exasperá-lo porque quer saber a todo o custo em que páram as modas...

    ResponderEliminar
  23. xiça é a primeira vez q cá venho e fiquei colada a ler...escreves mto bem....são bestiais os teus textos parabens....kissss

    ResponderEliminar
  24. Obrigado pela visita....... e eu acho k a Leonor é uma grande mulher, e o João um herói cheio de força, mas estes ingredientes só sao possiveis graças à cabeça do Rui. Estou aki a pensar... esta estória será a a tua? Ou será a de muitos Joãos e Joanas do mundo? Tou baralhada, mas tão feliz por a Gina ser tua amiga, só assim aki cheguei.... k booooooooooooommmmmmmm

    ResponderEliminar