domingo, março 19, 2006

O Olhar de Arminda (IV)

Francelina observava a filha ao longe, via-a recolher as vacas à loja – nome dado na aldeia à parte da casa reservada aos animais. Percebia nela a força e a determinação que um dia ela própria se vira obrigada a arrancar de dentro de si. Em Arminda isso era natural, tinha nascido com ela.
Quis sorrir mas não conseguiu. Sabia que essa mesma força e determinação da filha era o que, um dia, a ia levar a partir.

E assim foi.

Sentada num banco, Francelina estava sentada à janela. Tinha o olhar preso na rua, numa enxada que a filha se esquecera de guardar.Com os cotovelos apoiados no pequeno parapeito e as mãos juntas, parecia rezar.
Tinha parado de chover há poucos minutos. Nuvens escuras corriam velozes no céu, empurradas por um vento frio que soprava vindo de Espanha. Apesar de serem três da tarde, a pequena divisão, que servia de cozinha e de sala, estava envolta em semi-escuridão. A luz que tinha jorrado da lareira extinguira-se por falta de combustível sem que Francelina se tivesse apercebido disso.
Um relâmpago cortou o ar bem perto da aldeia, iluminando o rosto da mulher, que levantou os olhos do solo. As rugas marcavam-lhe a expressão. Os olhos brilhavam. Estava serena.
Seguiu-se o som do trovão, forte, próximo, fazendo-a estremecer.

- Mãe… - Arminda tinha saído do seu quarto e estava agora a meio da sala.
- Sim, filha? – Respondeu sem se virar.
- Vou viver para o Porto.
- Quando?
- Daqui a uma semana.
- É isso que tu queres?
- Sim, mãe…
- Vens visitar-me às vezes?

Arminda não respondeu, foi abraçar-se à mãe.
Também lá fora a água começou a cair.

Contou, depois, como tinha lido numa revista que havia uma fábrica de confecções de Vila Nova de Gaia a contratar raparigas. Que tinha escrito a Fernanda, sua ex-colega de escola, cujos pais tinham ido viver para o Porto há dois anos – e que a mãe bem conhecia -, para a ajudar a procurar um quarto para alugar. Que tudo ia correr bem.

Dez dias depois, ainda o dia não tinha nascido, estava Arminda, no seu quarto, a olhar para as roupas que tinha escolhido e colocado em cima da cama. Não tinha sido uma escolha difícil, pouco mais roupa tinha que aquela.
Pegou no candeeiro a petróleo e ajoelhou-se. Espreitou para baixo da cama e puxou uma pequena mala de cartão empoeirada e algo bolorenta. Tinha sido dada à mãe por um seu tio que vivia em Chaves. Era às riscas, em vários tons de castanho, já sumidas.
Limpou-a o melhor que conseguiu e arrumou algumas revistas e a roupa. Deixou de fora uma saia preta de tyrilene, com um macho, uma blusa pérola e um casaco de malha beige; ofertas de sua mãe, que as comprara à mulher de Laureano, dias antes. Sapatos, só tinha um par, sem salto, em pele castanha.
Vestiu-se e guardou o dinheiro que ia levar, no bolso. Bebeu uma caneca de leite e uma fatia de pão de milho com mel. Guardou na mala um pequeno farnel preparado pela mãe, e saiu de casa no preciso momento em que o primeiro raio de sol venceu o contraforte este da Serra. Estava pronta para a sua nova vida.

O plano era simples: iria de boleia até Bragança com a vizinha Leontina, que todos os meses lá ia à farmácia. Aí, apanharia a carreira até ao Porto, onde chegaria já de noite.

A despedida da mãe foi breve e quase silenciosa: Francelina tomou a cara da filha entre as suas mãos e olhou-lhe nos olhos; era aquele olhar de quando descia da Serra, longínquo. Lembrou-lhe o olhar do pai da sua filha e isso assustou-a.

- Prometes que tens cuidado?
- Sim, mãe.

Beijaram-se e Arminda entrou no carro.

Passava um pouco das nove horas quando a senhora Leontina e o marido deixaram Arminda à porta da central de camionagem.

- Ficas bem rapariga, não queres ajuda para comprar o bilhete?
- Obrigado mas não, dona Leontina, eu desenrasco-me.
- Então boa viagem.

Arminda não entrou para comprar o bilhete. Ficou a olhar para os carros que passavam e para os prédios à sua volta. Tudo aquilo era novidade para si mas não estava assustada. Como ainda tinha algum tempo, deu uma volta pelo quarteirão, observando tudo com atenção e algum espanto.
De volta à central de camionagem, esperou. Segurava na pequena mala com ambas as mãos e espreitava para um lado e para o outro.
Dez minutos depois ouviu o barulho ao longe. Sim, é a camioneta, pensou para si. Fixou os olhos naquele ponto azul que se aproximava no meio duma nuvem de fumo.
Reconheceu a camioneta: era a Bedford de Laureano que se aproximava.
Por entre uma chiadeira infernal, o veículo deteve-se junto a si. Arminda não se mexeu.
Abrindo a porta por dentro, a cara barbuda e suja de Laureano, apareceu à sua frente. Sorria, mostrando os seis dentes que tinha.

- Não estavas há muito tempo à minha espera, pois não, carinha laroca?

24 comentários:

  1. Parceria perfeita de pormenores que nos dão azo à imaginação e ao vislumbre perfeito do cenário com suspense :-)
    Bjnhs

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  2. Eu ouvi esse trovão :o]

    Espero que o "carinha laroca" esteja associado a tanto carinho como pareceu... gosto de finais felizes :o]

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  3. quem sai aos seus não é de genebra ou o filho pródigo na casa do pai entorna...

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  4. Estou como a Sara, gosto de finais felizes

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  5. ...que raiva, ser tal e qual a vida!

    Mas é mesmo assim, Rui.

    Beijinhos e boa semana de trabalho!

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  6. Aposto que o Laureano tem uma unhaca daquelas enormes para tirar a cera dos ouvidos e para palitar os dentes ( quais dentes? ).

    Venha mais

    Um abraço

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  7. Não adianta: criam-se os filhos para o mundo. É inútil tentar controlá-los. Mas é uma pena que a Francelina não tivesse oportunidade para aconselhar a filha, sobre o Laureano...

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  8. Tentar aprisionar um passaro selvagem é o que dá...mais dia menos dia...ele voa e foge! A ingenuidade, a exuberância, e a vontade de viver a aventura levam a arminda a soltar as asas e voar. Mas os voos radicais nem sempre são os melhores. Fico à espera de um final feliz...
    beijos

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  9. Tentar aprisionar um passaro selvagem é o que dá...mais dia menos dia...ele voa e foge! A ingenuidade, a exuberância, e a vontade de viver a aventura levam a arminda a soltar as asas e voar. Mas os voos radicais nem sempre são os melhores. Fico à espera de um final feliz...
    beijos

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  10. quem é o laureano??? ai caragos que isto parece o lost... bjs

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  11. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  12. Bem...já dizia o grande mestre..."mais vale asno que me carregue, que cavalo que me derrube..." 1 abraço Rui do Anónimo

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  13. ... agora -penso eu, é que vai começar à séria a vida atribulada da Arminda.

    ... e tenho uma suspeita que as coisas não vão ser fáceis para a moça.


    (felizmente que o Rui não mete publicidade pelo meio... )

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  14. Nao consigo parar de ler...ate chorei quando ela se despediu da mãe...conta mais,anseio!
    Bj

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  15. É que, de facto, e mais uma vez, não prevejo nada um bom desenlace...

    Contas tão bem a história que até chateia, Rui!

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  16. estas viagens fora da city ,ainda por cima de camioneta, são estimulantes.

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  17. então??? :(

    pronto, esta bem, bati com o nariz na porta :)

    beijokas

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  18. ...qual bacalhau qual carapuça ;)

    vim cá mesmo por causa da carinha laroca :)

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  19. Apaga tu aqui, porque no meu, quem lê o que eu escrevo, tudo me perdoa ahahahaha

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  20. gostei do twist, não estava nada a espera, muito bem conseguido, mesmo.

    =9

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  21. hummm cá a mim parece-me que a Arminda ainda vai ter muitas saudades da loja e dos seus ocupantes...

    ;)

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